por Eliandra Caon Marcolino, atriz e jornalista.

A gênese da atmosfera de um ambiente artístico se baseia em dois elementos principais: o verbo e a energia. Algo de sublime e sagrado reside nessas manifestações que são pensadas e sentidas entre emissor e receptor. A energia que os une numa constante espiral vertical passa pelo campo das ideias, mas se estabelece no sensível sinestésico. Referência dessa máxima, é o encontro com Sérgio Penna com sua equipe e atores (atores-bailarinos, músicos-bailarinos, atores-músicos-bailarinos… – dá-lhe artistas!) de toda parte do Brasil.

O “Cinema Instantâneo” é causalidade da apresentação da técnica de atuação do Penna. Aguçados curiosos, críticos e jornalistas gostariam de saber a que se refere e baseia essa técnica que levou grandes personagens e revelou atuações à TV e ao cinema brasileiro. Penna, sintetiza como na poesia haikai “minha técnica é a poesia”.

Abrangente ou singular demais, poesia pertence, aqui, ao sentir. Basta ser humano para entender que sensações e emoções acontecem pela observação. Observa-se o mundo fora; o que fato, sente-se por dentro e se dá para cada pessoa de forma diferente.

Há que voltar a dizer: a técnica é a poesia. Penna vale-se de música, sem preconceitos estabelecidos pelo gênero. Alforria de sinfonias: Sabotage, Caetano, Rita Lee, Tim Maia, Criolo, Shakira (…). Ao libertar os atores para as infinitas possibilidades de ser (pessoa/personagem) com a música, os ensina a, primeiramente, despir-se de qualquer lógica preconcebida de suas vivências e experiências, e assim, como se pela primeira vez, outra possibilidade de sentir. Adquire-se respeito pelo território do outro com a música, “os sentimentos são os mesmos para todos e tudo está dentro de nós, em maior ou menor intensidade”. A música une nações pelo sentimento que reside em cada um em qualquer parte do mundo. Volta-se ao sagrado escrito anteriormente.

Pelo respeito à personagem e a história que ela quer contar, o ator fica nu para que o laboratório desse terreno seja novo, ressignificando seus próprios sentimentos.

Há também que voltar a dizer: a técnica é energia. A técnica é a essência da arte. A dança que nada fala mas tudo diz com o corpo. Corpo que atrai e repele o outro. Corpo leve, duro, pequenino, copioso, desmedido. A dança é outro instrumento de que se vale o atuar. O jogo de corpos busca as possibilidades de interação entre atores e eleva o conhecimento sobre limites e capacidades de cada um. Nessa descoberta, “há que se permitir”, disse a bailarina. “Deixe-se sentir”.

Há que ter liberdade de criar, sem erro, sem culpa e sem cobrança. A técnica cria atmosfera para se chegar ao texto que sai da boca da personagem de maneira fluídica e flexível, como se pertencesse à persona que a representa.
A técnica é a poesia. Vá de Nelson, Leminski, Grotowski. Vá de Criolo. Cada personagem sua poesia, dança e musicalidade. Um novo, velho e conhecido despertar.

E é assim, como nesse texto, o ator começa na terceira pessoa e vai se misturando com a primeira. Começa homem nu, termina em poesia. Em “eu sou”. A gente pede perdão a qualquer formalidade e norma culta para simplesmente ser. Deixe-me ser e o que vier.

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Sergio Penna

interpretação para cinema e tv

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