O Diário da Atriz é um projeto que reúne relatos sobre as experiências vividas nos workshops ministrados pelo mestre Sérgio Penna. As “seis mãos”, compostas por Carolina Cardinale (atriz e roteirista), Isabella Marano (atriz e jornalista) e Eliandra Caon (atriz e jornalista), escrevem, juntas ou individualmente, o que vivenciaram e observaram desse universo subjetivo intangível, do contato com o outro e do fluxo que nasce em cada encontro. Poesias, poemas, ensaios e textos livres descrevem esse mergulho profundo e transformador que ocorre nos artistas durante o processo. A ideia do trabalho é a tentativa de transformar a emoção que paira em palavras.

Textos de Isabella Marano

Ritual

O Ritual do Ator é um processo único, necessário. Artistas são vulcões em erupções internas, é preciso cavucar para sentir no fundo a dor. Há de se estar só e concentrado para encontrar o caminho lúdico da personagem, seu fluxo, seu ritmo, sua dança, sua música, seu tambor. Tem que dar tempo, pacientemente, para que ela pouse, pedacinho a pedacinho sobre o ator. O terreno precisa ser fértil, de pesquisa, adensamento, construção e conhecimento para servir de base para o pouso. É imprescindível estar presente e disponível, forte e humilde. A descoberta é de total delicadeza, sutileza e cuidado. A carga é subjetiva, poética, pequenininha e potente. O território da personagem é sagrado, por isso é preciso respeito para pisá-lo. É preciso pedir licença, saber onde se está entrando, trazer uma mala de emoção, um coração e um corpo sedentos por sentir, despretensiosamente. Responsabilidade para essa imersão. Instante a instante, o trabalho permanece, fica…no olho, no corpo, no ar e, posteriormente, na atuação. #móduloII

 

Fluxo

Fluxo. “Ato de fluir. Movimento contínuo de algo que segue em curso”. Longe de definições racionais e significados do dicionário. Aqui, há uma fusão de almas, um encontro de humanos, uma erupção única proveniente de muitos vulcões. Cada segundo é sagrado, cada toque causa reações inesperadas, cada movimento pousa em algum canto profundo de nós. Sobe. Energia suspensa. Flutua em mim, flutua no outro. É solidária a entrega. Quando menos se espera, paira uma dança, subjetiva, coletiva, individual. Tudo pode, tudo explode. Não existem olhos de concreto, duros, repressores. É nosso o território, do invisível, do indizível. Somos silêncio, comparsas, cúmplices de um acontecimento interior inesperado. Aqui não se espera, só se entrega. Cada um dá  o que tem, o que vem. E deixa-se vir, se abraça o devir. E ao findar “vai dar em nada do que eu pensava encontrar”. É lindo, é poesia, é sutil e é único, só por isso.

 

Amantes

Atores são amantes da vida. Queremos viver as dores do mundo. O Workshop é um convite sutil a percorrer esse caminho de descobrimento que envolve a nossa profissão, através do universo poético, da música e da dança. A proposta é não cartesiana e longe de métodos.  A interpretação é filha do tempo, não existem fórmulas feitas, senão se perde o “vento”, a pesquisa. A percepção precisa estar ampliada para essa linguagem que não é racional, está no corpo, no fluxo, no sentimento, na respiração e é intensamente real e profunda. É preciso estar aberto para se reinventar e entregar-se a ela, por meio de si e pelo outro. Há um princípio primário de desnudamento, de esvaziamento para ser preenchido, é necessário trabalhar como antropólogo, se isentando de qualquer opinião individual. Outro básico é a solidão, o ator tem que encontrar seu ritual de conhecimento e o de seu personagem, sozinho, em silêncio, no “escuro”. Ter confiança no seu instrumento de trabalho e permitir-se ir de encontro a levada, ao devir, ao fluxo que surgir. O objetivo é buscar o diálogo interno da personagem, a sua essência e dor profunda. Como o trabalho inteiro é delicado e sutil, anda-se um passo de cada vez. O Primeiro Módulo foca no princípio de uma dramaturgia, onde, na “Festa dos Personagens”, os atores levam um sentimento para ser desenvolvido. Já o Segundo Módulo propõe um maior aprofundamento com o mergulho vertical em uma personagem com dramaturgia, de acordo com a escolha do ator, e acompanhamento profissional individual. É um processo à flor da pele, sério, intenso, sensível, potente e transformador.

 

Realidade e ficção

Isentei-me de mim. Dei a mão a um sentimento. “Por que será que existe o que quer que seja?” Fui de encontro ao lusco fusco. Fico entre a realidade e a ficção, flerto com o instante. Corpo aberto para encontros e desencontros com o outro. Permito-me sentir com a dor guardada. Sou livre, aqui o tempo é meu. Investigo com o coração. Silêncio. Acho nuances do avesso, as cumprimento em respeito. Estou no jogo, mantenho-me, permaneço. Firme. As retinas captam, eu olho devagar. Reverencio o devir. Acredito que tudo vem, no seu tempo. Basta estar à espera, delicadamente, pacientemente, pronto para receber. O que chega invade e não volta. Degusto. Faço a cama, deito no  repertório do que senti. Guardo a munição. “Perto do alvo, longe de mim a ideia de atirar”. Deixo anoitecer, a personagem deita devagar em mim.

Textos de Carolina Cardinale

Módulo I

Processo ímpar! O workshop é para o ator um mergulho profundo, de aproximadamente trinta horas. Este não é um processo de exaustão, nem terapia de choque. Penna conduz de forma leve, poética e musical a busca do ator, que é transmutada pelo coletivo. UNIDADE. O despertar de uma consciência da equidade de suas vontades, desejos, sonhos e anseios, proporcionando uma atmosfera, um “organismo vivo” de pesquisa voltado à empatia do sentir. A sinestesia se torna lugar comum. Um se reconhece no outro.  Essa catarse proporcionada pelo primeiro encontro “zera” o grupo para o início do processo, arroteando equívocos do ego. Surge então, o livre fluxo que permite ao artista acessar seu mais ínfimo sentimento, através de um repertório metafórico singular, poético e musical. Os depoimentos sobre as preparações que Penna realizou nos filmes convergem com a trajetória de cada um, e geram discussões filosóficas. Ao longo dos dias, se estabelece uma convenção ditada pelo acordo tácito e conexão com o tempo/espaço presente. O coletivo caminha para o Cinema Instantâneo: OUTRAR! O organismo vivo se dissolve. Indivíduos repletos do outro vestem um motivo e um sentimento para seis horas de imersão desperta. Não é improvisação, mas espontaneidade cênica.  O olhar do Mestre é direcionado de acordo com a dramaturgia desenhada pelo fluir criativo dos artistas, seus pontos de virada, curvas dramáticas, vontades pluralmente fictícias e relações imprevisíveis. Respire fundo e mergulhe você também neste mar pelicular de existir.

 

Módulo II

Porque tem coisa que não se APREENDE.
Ainda preciso me tornar algo, ou devo ser NADA para mergulhar no profundo poço que me leva ao ponto zero?
Talvez tornar-se pesado seja imprescindível para afundar abaixo do -1 de si.
Preencho-me então do que eu poderia ser? Dos possíveis desdobramentos do meu querer “re-existir”?
Alter ego.
Personagem.
Persona.
Como me livrar do mascaramento em mosaico, grudado com cola adesiva na nudez da pele outrora tão crua?
São fragmentos do que eu pensei que fosse verdade absoluta do meu âmago estilhaçado.
Caquinhos daquilo que imagino ser cobrem meu corpo e formam a couraça que encasca minha essência.
Se por um momento eu pudesse deixar de ser,
mas sou adesivada pelas projeções de mim.
Se me livrar destes decalques ainda restará o grude costumeiro das colagens equivocadas de uma vida inteira
E o que é real? Real é o marco zero de sua identidade-essência, a neutralidade do sentimento
…ou seja: o não-sentir, o não-tocar…
Ser tocado e deixar fluir o que vier.
Não impor, mas se colocar disponível.
Onde? Como?
Na não-ação, no não-pensamento, e quem sabe, na contramão da conjectura do óbvio criar.
Não faça ser, para assim então… se tornar.

 

Ensaio sobre a Partitura Instantânea

(Este foi um momento mágico. Enquanto escrevia sobre a partitura do ator, uma das duplas se encaminhou até o piano e fez uma linda cena. Muita inspiração)
Pouco a pouco
Nota a nota
Não é composição de “dó a si”
É partitura feita de pés que não tocam o chão, de mãos que dedilham o outro, quadris desajustados
De abdômen travado e corpos nas costas
De braços e pernas que se movimentam como ondas
De Chacras que fluem abrindo canais
De cabeças que giram criando canções textuais
Em memórias afetivas stanislavskiana, Distorções artaudianas
Questões freudianas, Exaustão grotowskiana
Despsicologizadas
Apenas expurgadas organicamente
Movimentos “desensaiados”
Fixados em desacorde
Desbaratino de sons internos
Que batem em diferentes teclas
Agudizando emoções pequenas
Gravitacionando frações de cenas
Música de pele e osso, mente e voz
Aqui e agora
Sala de ensaio
Os três sinais?
Não mais

 

O mestre e a Alquimia

“Ao adentrar o solo sagrado do Workshop Sergio Penna, o artista sente seu coração palpitar. Não sabe ao certo como se comportar ou o que esperar. Afinal, cadê as câmeras? Não é um curso de cinema?
Aos poucos o círculo vai se instaurando. O artista olha para o lado, e pergunta: Você já esteve aqui antes?
Não importa a resposta que ele ouvirá, a ansiedade só cresce na espera pelo mestre.
O espaço está livre. Senta-se no chão, apoiando seu peso nos ísquios. Olha para o outro lado, alguém se alonga. O artista, um pouco sem graça, deita-se no chão. Estica dali, estica daqui. Pensa “Mas isso é teatro! Será que estou fazendo certo?”. Para. Observa. Nada está ao seu alcance. É um mundo novo. Sente um incômodo. Acomoda-se então do lado de fora da sua zona de conforto. Ou seja, antes do mestre chegar o processo já foi iniciado.
Os artistas que ali estão, anseiam pela experiência de imersão, e quando o dia chega é como se fossem de encontro com sua verdade, com a sua pedra filosofal.
Sim, o artista está prestes a mergulhar nesta alquimia.
A pedra filosofal tem o poder de transmutar e aflorar a vontade de criar, que existe dentro de cada ser humano.
O artista aguarda então o Alquimista com a sua pedra filosofal. Ansioso por aquele que transformará tudo em ouro. Ansioso pela fórmula secreta que só o mestre revelará.
Eis que o mestre chega. O artista consegue se enxergar no mestre, tamanha proximidade.
A alquimia se inicia. Os ingredientes são: esvaziamento, desprendimento, fluxo, disponibilidade, poesia, música, corpo, voz, gesto, riso, suor e lágrimas. “Outrar” é o reagente desta fórmula.
Amanhã, diversos artistas do Brasil inteiro saem de suas casas, impulsionados pelos seus sonhos, rumo a este fenômeno. Todos com uma esperança fecunda de aprimoramento e novas oportunidades profissionais. Mal sabem que este final de semana será o início de um novo eu, de um novo artista, de um ser humano-alquimista.”

Textos de Eliandra Caon

Lusco Fusco

Corre a mão pelo concreto duro e frio, como se pudesse dançar com a ponta dos dedos pelo vazio. Corre pelos espaços vagos, preenchida de qualquer coisa, que de tão efêmera, passa e borra; não se define. 
Anda quita e miúda. Anda com a garganta seca; cansa e senta. Senta como quem já ardeu demais! 
Deita e se arrasta trêmula, pequena e vasta de tanto. Escorre pelos vãos que lhe cabe, e se cabe, escorre a lágrima da dor que nunca passou. 
Respira o ritmo do tambor do coração; sente a necessidade do grito, mas é no silêncio que ela estira os olhos marejados para mim e me penetra; ela me lembra alguma memória que não vivi. Me revira! E eu não resisto. Já não sei se sou a atriz ou se sou a personagem. Não sei se sou eu que empresto ou se ela que me devolve. Me deem a liberdade de me confundir um pouco! 
Teus olhos que são também meus, desenham a dramaturgia da minha alma que também é a dela. E, então, eu quero fugir. Que nada! Isso se revela farsa quando corro até ela pra dizer alguma coisa. Qualquer coisa. 
Antes que o verbo escorra de minha boca, visto teus sapatos e caminho pela tua história. 
Se sou eu ou se sou ela, quem se emprestou a quem, se é reflexo ou se é sombra, se é mentira ou se é verdade, o que mais nos revelaria a vida? Moro em mim e moro nela, numa casa com paredes de concreto duro e frio, mas com janelas, portas e alma abertas.”

 

Outrar

Corre a mão pelo concreto duro e frio, como se pudesse dançar com a ponta dos dedos pelo vazio. Corre pelos espaços vagos, preenchida de qualquer coisa, que de tão efêmera, passa e borra; não se define. 
Anda quita e miúda. Anda com a garganta seca; cansa e senta. Senta como quem já ardeu demais! 
Deita e se arrasta trêmula, pequena e vasta de tanto. Escorre pelos vãos que lhe cabe, e se cabe, escorre a lágrima da dor que nunca passou. 
Respira o ritmo do tambor do coração; sente a necessidade do grito, mas é no silêncio que ela estira os olhos marejados para mim e me penetra; ela me lembra alguma memória que não vivi. Me revira! E eu não resisto. Já não sei se sou a atriz ou se sou a personagem. Não sei se sou eu que empresto ou se ela que me devolve. Me deem a liberdade de me confundir um pouco! 
Teus olhos que são também meus, desenham a dramaturgia da minha alma que também é a dela. E, então, eu quero fugir. Que nada! Isso se revela farsa quando corro até ela pra dizer alguma coisa. Qualquer coisa. 
Antes que o verbo escorra de minha boca, visto teus sapatos e caminho pela tua história. 
Se sou eu ou se sou ela, quem se emprestou a quem, se é reflexo ou se é sombra, se é mentira ou se é verdade, o que mais nos revelaria a vida? Moro em mim e moro nela, numa casa com paredes de concreto duro e frio, mas com janelas, portas e alma abertas.”

 

Festa dos Personagens

É noite. A lua sobe devagar enquanto pequenas luzes piscam gentilmente no interior da casa. Os convidados são artistas que se unem na concepção desmedida do acaso. Falo de destino – quem sabe. Estamos permeando o fim de uma imersão de trinta horas com trocas de conhecimentos, histórias e arte. Um encontro dentro do encontro.

Os atores caminham independentes de si mesmos pelos espaços, envoltos por um sentimento que desenha seus movimentos. O motivo é a coreografia que  desafia os olhos a dizer o indizível, no paradoxo da não-dramaturgia. No tocante do devir, deixa-se estar como se tem de ser. Seria breve, se não fosse intenso. Seria breve se não fosse carregados de significados propostos nos primeiros minutos do discurso. Mas é eterno porque toca.

As efusões de corpos, o repertório de dança, música, interpretação, poesia, a descoberta do eu, do outro, do toque, das paixões, culminam para esses olhos preenchidos de qualquer coisa que seja, mas que é. O cinema instantâneo contempla inspirações pelo despertar da consciência emocional no início de todo processo. Uma metáfora excêntrica sobre a vida. Tudo aquilo que somos, nos leva para o instante do agora; e esse momento é a única verdadeira experiência sobre nós mesmos.

A roda já está girando: “Eu sou Dionísio”. Nós só temos de pedir licença pra mantê-la em movimento, como tudo que é sagrado e transcende nossa própria história. No cinema, o movimento não-linear são os olhos. E esses transbordam o que está no coração, mesmo que isso signifique a expressão do vazio.

 

Encontro (Obs.: texto sobre os encontros e não sobre o Workshop)

“Um pequeno grupo de atores se reúne em uma sala com objetivos em comum: estudar a arte de interpretação na TV e Cinema. Este é o primeiro quadro observado; mais adiante, quando fervilha em seus corações as dimensões dessa arte, vemos que há outros pontos em comuns que dão o nó inevitável para esse encontro. A imensidão humana do sentir proporcionada pela catarse. 
O filme é “Bicho de Sete Cabeças”, direção de Laís Bodanzky e preparação de Sergio Penna. As cenas analisadas trazem inquietações e angústias que passam por questões técnicas do cinema e por questões da psique humana. A obra é desmembrada: dramaturgia, sonoplastia, direção, poesia, preparação, técnica, personagens (…). A leitura minuciosa do filme é explorada com a conversa de outras obras, outros repertórios individuais, outros assuntos paralelos e tão importantes quanto o da grande cena. Atiram-se os atores para dentro de si e para sua própria (e comedida) loucura, para buscar suas sombras que o Bicho de Sete Cabeças evoca e provoca. 
Finalizo com um trecho retirado do filme, que faz os homens ordinários e comuns questionarem o inquestionável pelo prazer da pergunta e não da resposta: “O desgosto pode levar a loucura. 
Uma morte na família, o abandono de um grande amor. 
A gente as vezes precisa fingir que é louco sendo louco. 
Fingir que é poeta sendo poeta…. “

 

Infinito de mim

Não saber-me por inteira, disponibiliza a profundidade do toque em lugares nunca antes despertos. E aí então, sou um novo reflexo; não por escolha, mas num primeiro instante, por impulso criativo. Dentre tantas outras verdades, essa é uma que representa este trabalho… o descobrir das infinitas possibilidades de mim.

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Sergio Penna

interpretação para cinema e tv

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