por Estrela Straus, atriz e diretora.

No meu caminho, tanto como atriz, como diretora e também como espectadora de cinema e teatro, cada vez vai ficando mais claro que o que a platéia presencia no palco ou na tela é uma amálgama entre o trabalho (e por trabalho entenda-se a arte, o talento, os insights e o suor!) do autor (ou no caso do cinema o roteirista), do diretor e do ator. No cinema é cada vez mais comum que mais um componente entre nesse jogo: o preparador de atores. Nesse fim de semana que passou eu tive a benção de participar de um workshop com um dos grandes preparadores do Brasil: Sérgio Penna! Sérgio preparou o elenco de filmes como: Bicho de Sete Cabeças, Carandiru, Não por Acaso, Contra Todos, Bruna Surfistinha….

O que une todos esses filmes é justamente a interpretação sincera dos atores, o que sempre contribui para que as histórias sejam contadas a partir do humano, demasiado humano… Essa verdade no trabalho do Penna sempre me interessou… e eu gosto de compreender a maneira que as pessoas que eu admiro trabalham, e por isso, lá fui eu louca, recém chegada de Berlim para uma maratona de workshops… Primeiro com Madame Mnoushkine e depois com Penna… Valeu a pena (!) Saí dessa semana com novas ferramentas para contar e viver histórias com verdade! Na seguidinha de workshops, e vindo do processo de “Fracture” em Berlim, completamente baseado em tudo o que eu aprendi no Strasberg, eu fiquei com a sensação de que as bases do trabalho são as mesmas… A entrega, a presença, o jogo, a verdade… os nomes, os métodos podem variar, mas a busca, e até mesmo as ferramentas são as mesmas… Logo de cara percebi uma semelhança entre Penna e Mnoushkine: o respeito ao sagrado da cena. Ariane não deixa ninguém pisar no palco sem ser para entrar em cena, ela diz que o espaço delimitado como palco é a cena, tudo deve mudar quando você entra ali, ali é teatro, ali é o fogo e deve ser tratado como tal… Penna, como trabalha com cinema, delimita esse sagrado de outra maneira, mas também o delimita, e a gente pode perceber isso tanto nos exercícios que ele faz com a gente, quanto nos depoimentos dos atores com quem ele trabalhou, mas mais que nada nos vídeos mostrando o trabalho em si… delimita colocando o ator num outro estado, no estado do personagem…

Vendo o vídeo do Caio Blat se preparando para entrar em cena em “Bróder”, esse sagrado fica muito claro… Caio está colado em Macu, Macu está colado em Caio e aquilo é sagrado, é fogo, é cinema e inspira tanto respeito quanto o palco de Ariane! Tanto respeito que a equipe fica em silêncio ao redor de Caio/Macu e resultado disso é Macu vivendo na tela. O silêncio da equipe me remete a outro ponto do trabalho de Sérgio Penna que muito me interessa: o trabalho coletivo. E isso ele traz da sua bagagem de teatro. Ele defende que essa maneira coletiva de trabalhar cabe no cinema e que vale tomar esse tempo de criação e preparação, e que todo esse trabalho imprime na tela. O trabalho coletivo nos exercícios do que ele chama de “tempo e espaço real”, exercícios que não são improvisações, são jazz! E jazz que ele só coloca os atores para criar quando eles já estão imbuídos (cheios, impregnados, penetrados!) de seus personagens!

Esses exercícios me lembraram muito os “estudos” que a gente fazia lá no Strasberg… os “études” de Stanislavski… (mais um indício, que estamos todos buscando o mesmo: a verdade em cena!) E a verdade, tal qual a matéria prima do ator, é fugídia… E Penna sabe disso, e no seu trabalho muito tempo e energia é dedicado ao trabalho braçal, de pesquisa, de trabalho de campo, de criação de memória… criando assim a base, a partitura pra o ator colocar a sua intuição a serviço do personagem…A memória, elemento chave de todo o trabalho do Strasberg e também de Stanislavski, é trabalhada também por Penna de uma outra maneira… através desses exercícios de tempo e espaço real, ele faz com que os atores se disponibilizem a realidade dos personagens, e portanto tudo o que neles acontece passa a ser também memória, que fica tatuada na alma do ator e vira propriedade sobre o personagem em cena e transparece em vida real na tela. O trabalho dele vai em direção ao essencial, sem firulas, em direção a presença e a disponibilidade do ator, pra que a alma seja revelada a camera… Pôxa… eu poderia escrever laudas e laudas sobre o tanto que aprendi nesse fim de semana com Sérgio Penna (foram 37 páginas do meu caderninho!) mas me detenho no haikai que escrevi num exercício que ele nos propôs:

Posso falar mais
Quero falar menos
Só a essência é essencial
“É crer pra ver!”
 (Sérgio Penna evocando Asdrubal Trouxe o Trombone)

“Os grandes atores outram nas personagens que interpretam”
Eu outro
Tu outras
Ele outra
Nós outramos
Vós outrais
Eles outram
(Sérgio Penna, evocando Fernando Pessoa durante o workshop…)

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Sergio Penna

interpretação para cinema e tv

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